PR tem mais vigilantes que PMs
10/08/2011, última atualização em 10/08/2011 11:03
A ineficiência do Estado em cumprir o dever constitucional de garantir a segurança dos cidadãos tem impulsionado a atuação de empresas de segurança privada no Paraná, que têm crescido além das forças policiais. Sindicatos do setor e especialistas estimam que, atualmente, 90 mil vigilantes estejam em atividade no estado, entre legalizados e clandestinos. O número é quatro vezes maior que o efetivo da Polícia Militar (PM), estimado em 16,7 mil homens.
Hoje, o Paraná é o 7.º no ranking de unidades da federação com o maior número de vigilantes cadastrados na Polícia Federal (PF), com 91 mil profissionais com permissão para exercer a função. Destes, 22,5 mil estão em atividade, fazendo a segurança de espaços particulares. A clandestinidade, no entanto, faz com que o peso da segurança privada seja muito maior. Sindicatos e empresas apontam que, para cada vigilante legalizado, três atuam irregularmente. Neste cenário, seriam 67,5 mil clandestinos. A ilegalidade também abrange as empresas: enquanto existem 104 grupos de segurança privados cadastrados no Paraná, há mais de 700 clandestinos.
Para o professor de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Lindomar Boneti, o aumento da presença da vigilância privada ocorre porque a sociedade desconfia da qualidade dos serviços de segurança pública oferecidos pelo Estado. Esses números refletem que o Estado não tem exercido seu papel. Com isso, o mercado se apropria deste espaço negligenciado pelo poder público para oferecer um produto, concorda o especialista em segurança e professor de Direito Penal da UniBrasil Ledo Paulo Guimarães.
As opiniões vão ao encontro do sentimento do paranaense. Um estudo conduzido pelo instituto Paraná Pesquisas, a pedido da Gazeta do Povo, revelou que 70% dos entrevistados se sentem menos seguros que cinco anos atrás. Quase um quinto dos entrevistados (19,67%) mencionou a falta de policiamento como o elemento mais associado à violência. No mesmo sentido, 52,96% disseram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a presença da polícia em seus respectivos bairros.
Atividade complementar
Os especialistas avaliam que, como fica restrito a espaços particulares, o maior efetivo privado não implica na melhoria da segurança pública. Para Guimarães, ocorre a elitização do debate: somente quem pode pagar pelo serviço fica com a sensação de proteção. E é apenas uma sensação porque a presença de vigilantes não garante a segurança, em si, opina.
O ex-secretário Nacional de Segurança, coronel José Vicente Silva, classifica a segurança privada como uma atividade complementar à da polícia. Os agentes particulares atuariam em locais sobre os quais o Estado não tem obrigação direta. A maioria [dos vigilantes] vai fazer controle de acesso e rondas em espaços privados. Coisa que não é de competência, nem obrigação da polícia, pontua.
Mercado
Empresas exigem vigilância
Em segurança, discrição é regra. Os três vigilantes postados em uma guarita à frente do edifício Laís Peretti, no bairro Juvevê, em Curitiba, passam praticamente despercebidos pelos visitantes. Uma vez dentro do prédio, a pessoa tem todos seus passos monitorados. Após a tradicional identificação na portaria, todos são observados por 72 câmeras internas, espalhadas pelos 24 andares e garagem. Uma equipe de agentes privados faz rondas internas. Em cinco anos, nenhuma ocorrência foi registrada no prédio.
É uma exigência das próprias empresas que mantêm escritório no prédio. Eles não se importam de investir um pouco mais, desde que a segurança esteja garantida, diz o gerente-administrativo do edifício, Paulo Roberto Teixeira. Se alguma ocorrência for registrada, os vigilantes acionam a central e, em poucos minutos, equipes de reforço estão no local, garante o diretor-operacional Mauro Nunes. À noite, a equipe é reforçada com agentes armados.
Para Teixeira e Nunes, a preocupação com a segurança passou a ser prioridade para as empresas há cinco anos. Antes, as pessoas não gostavam sequer de se identificar nas portarias. Hoje, se não virem vigilantes, estranham e parecem não se sentirem seguras, diz Nunes.
Fonte: Gazeta do Povo
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